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A Doença Falciforme (DF) é uma condição genética e sistêmica que, para além dos conhecidos sintomas de crises de dor e alterações hematológicas, impõe sérios desafios ao funcionamento cerebral. Como neuropsicóloga, é imperativo abordar a dimensão cognitiva e emocional da DF, reforçando que os impactos na qualidade de vida e na aquisição de conhecimento demandam uma abordagem preventiva e integrada.
O impacto silencioso da doença falciforme no cérebro: A DF pode causar alterações no funcionamento cerebral devido a episódios de hipóxia (baixa oxigenação) e micro-infartos. Mesmo na ausência de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) manifesto, o cérebro pode sofrer danos que comprometem funções cognitivas essenciais como percepção, atenção, memória e raciocínio. Um estudo robusto conduzido pela psicóloga Isabel Castro no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da UFMG, com 64 crianças e adolescentes (7 a 13 anos) com Anemia Falciforme sem histórico de AVC, trouxe descobertas alarmantes.
O grupo de pacientes apresentou pior desempenho em todas as medidas cognitivas do teste de inteligência WISC-III em comparação com o grupo controle. Infartos silenciosos e a surpresa da pesquisa: O estudo analisou a ocorrência de Infartos Cerebrais Silenciosos (ICS), lesões identificadas por ressonância magnética que não causam sintomas clínicos evidentes. Embora a hipótese inicial fosse de que os pacientes com ICS teriam pior cognição, o resultado revelou que: "Não houve diferença significativa entre as funções cognitivas dos pacientes com e sem ICS... O que mostra que a anemia falciforme é muito mais silenciosa em termos cognitivos do que achávamos." Isso significa que o prejuízo cognitivo é intenso e se manifesta mesmo na ausência de infartos silenciosos, reforçando a natureza sistêmica e o risco constante que a doença impõe ao desenvolvimento cerebral.
O dano cognitivo e o fator socioeconômico: O estudo da UFMG revelou um dado particularmente preocupante: ao ajustar para o nível socioeconômico, os indivíduos com DF apresentaram, em média, um Quociente de Inteligência (QI) 21 pontos menor que o grupo controle. Este achado sugere que a doença é um preditor fortíssimo do QI total, de forma "silenciosa e assintomática." Esses déficits cognitivos têm impacto direto no desempenho escolar e na autonomia do paciente, exigindo ações de reabilitação e acompanhamento pedagógico especializado. O olhar multidisciplinar: Psicologia, Neuropsicologia e Ginástica Cerebral: O cuidado integral ao paciente com DF deve ir além do controle hematológico. É necessário abordar as complexidades emocionais e cognitivas:
M.e. Melissa Cristina Silva, Neuropsicóloga e Diretora da Ginástica do Cérebro
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