Prejuízos Cognitivos na Doença Falciforme: Uma Urgência para Cuidados Preventivos e Multidisciplinares

Publicado por: M.e. Melissa Cristina Silva Segunda, 17 Novembro 2025 07:34 0
Prejuízos Cognitivos na Doença Falciforme: Uma Urgência para Cuidados Preventivos e Multidisciplinares Divulgação

A Doença Falciforme (DF) é uma condição genética e sistêmica que, para além dos conhecidos sintomas de crises de dor e alterações hematológicas, impõe sérios desafios ao funcionamento cerebral. Como neuropsicóloga, é imperativo abordar a dimensão cognitiva e emocional da DF, reforçando que os impactos na qualidade de vida e na aquisição de conhecimento demandam uma abordagem preventiva e integrada.

O impacto silencioso da doença falciforme no cérebro: A DF pode causar alterações no funcionamento cerebral devido a episódios de hipóxia (baixa oxigenação) e micro-infartos. Mesmo na ausência de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) manifesto, o cérebro pode sofrer danos que comprometem funções cognitivas essenciais como percepção, atenção, memória e raciocínio. Um estudo robusto conduzido pela psicóloga Isabel Castro no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da UFMG, com 64 crianças e adolescentes (7 a 13 anos) com Anemia Falciforme sem histórico de AVC, trouxe descobertas alarmantes.

O grupo de pacientes apresentou pior desempenho em todas as medidas cognitivas do teste de inteligência WISC-III em comparação com o grupo controle. Infartos silenciosos e a surpresa da pesquisa: O estudo analisou a ocorrência de Infartos Cerebrais Silenciosos (ICS), lesões identificadas por ressonância magnética que não causam sintomas clínicos evidentes. Embora a hipótese inicial fosse de que os pacientes com ICS teriam pior cognição, o resultado revelou que: "Não houve diferença significativa entre as funções cognitivas dos pacientes com e sem ICS... O que mostra que a anemia falciforme é muito mais silenciosa em termos cognitivos do que achávamos." Isso significa que o prejuízo cognitivo é intenso e se manifesta mesmo na ausência de infartos silenciosos, reforçando a natureza sistêmica e o risco constante que a doença impõe ao desenvolvimento cerebral.

O dano cognitivo e o fator socioeconômico: O estudo da UFMG revelou um dado particularmente preocupante: ao ajustar para o nível socioeconômico, os indivíduos com DF apresentaram, em média, um Quociente de Inteligência (QI) 21 pontos menor que o grupo controle. Este achado sugere que a doença é um preditor fortíssimo do QI total, de forma "silenciosa e assintomática." Esses déficits cognitivos têm impacto direto no desempenho escolar e na autonomia do paciente, exigindo ações de reabilitação e acompanhamento pedagógico especializado. O olhar multidisciplinar: Psicologia, Neuropsicologia e Ginástica Cerebral: O cuidado integral ao paciente com DF deve ir além do controle hematológico. É necessário abordar as complexidades emocionais e cognitivas:

  1. Suporte psicológico e emocional As crises de dor, as hospitalizações recorrentes e o estigma da doença crônica elevam significativamente o risco de ansiedade, depressão e isolamento social. A psicoterapia é fundamental para fortalecer a autoestima, auxiliar no manejo da dor crônica e promover o ajuste psicossocial.
  2. Avaliação e reabilitação neuropsicológica A avaliação neuropsicológica é uma ferramenta indispensável para identificar objetivamente os déficits em atenção, memória de trabalho e velocidade de processamento que podem passar despercebidos clinicamente. Neste contexto, a Ginástica Cerebral (ou estimulação cognitiva) se torna uma aliada valiosa para complementar o tratamento convencional: Estimulação da neuroplasticidade: Exercícios desafiadores e estruturados incentivam a capacidade do cérebro de criar novas conexões, o que é vital para compensar possíveis danos neurológicos causados pela doença falciforme. Foco na atenção e concentração: A prática de exercícios cognitivos melhora a eficiência do cérebro em tarefas diárias, atuando diretamente nas funções mais afetadas pela doença. Fortalecimento da memória: Jogos de lógica e memorização ajudam a atenuar os déficits de memória que podem surgir. A urgência de uma abordagem preventiva: Os resultados de pesquisas como a da UFMG sugerem a necessidade urgente de: Inserção imediata de protocolo de avaliação psicológica no seguimento de todas as crianças com DF. Políticas públicas em Educação e Saúde para garantir a permanência e o suporte pedagógico adequado a esses alunos. Projetos como o “Saber para Cuidar” (UFMG/Hemominas) são exemplos essenciais desta iniciativa. Expansão do uso da hidroxiureia para todas as crianças com a doença, desde cedo, e a inclusão da medição do desenvolvimento cognitivo em estudos clínicos sobre o medicamento. O prejuízo cognitivo na Doença Falciforme é uma realidade silenciosa, mas profunda. Um olhar multidisciplinar e preventivo, que inclua o acompanhamento psicológico e neuropsicológico e a reabilitação cognitiva, é a chave para garantir o bem-estar, a autonomia e a qualidade de vida dessas pessoas.

M.e. Melissa Cristina Silva, Neuropsicóloga e Diretora da Ginástica do Cérebro

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